Open Data Day POA 2025 promoveu discussão e avaliação de informações públicas sobre alertas de enchentes

Canais digitais da Defesa Civil de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, além do Verifica RS, foram analisados por participantes, à luz das discussões do painel de abertura sobre participação cidadã na geração de dados para a resiliência climática

A edição 2025 do Open Data Day POA, o Dia dos Dados Abertos de Porto Alegre, reuniu representantes do poder público, da academia e da comunidade para discutir a disponibilidade e a qualidade das informações públicas para o enfrentamento das mudanças climáticas em Porto Alegre. O evento, realizado na Unisinos Porto Alegre no dia 15 de março, destacou a importância de dados acessíveis e confiáveis para a prevenção de eventos extremos, a partir do tema “Geração cidadã de dados e mudanças climáticas: criando pontes entre poder público, academia e comunidade por uma cidade mais resiliente”

A programação teve início com painel mediado pela jornalista Karine Dalla Valle, trazendo reflexões sobre a importância dos dados abertos para a resiliência climática. Também se destacou o papel da desinformação climática, a necessidade de revisitar o conceito de resiliência e a urgência de transformar dados em ações concretas para prevenir futuros desastres ambientais. 

A pesquisadora Renata Netto, do Programa de Pós-Graduação em Geologia da Unisinos, abriu o painel reforçando a necessidade de reavaliar o conceito de resiliência climática, que vai além da capacidade de resistência a desastres. “Resiliência não é só suportar eventos extremos, mas adaptar-se para evitar que eles causem tanto impacto”, explicou. Netto também criticou a falta de financiamento para pesquisas voltadas à prevenção de desastres no Brasil, alertando que, sem um volume adequado de dados, as decisões continuam sendo tomadas de forma deficiente. “Ainda não temos as ferramentas completas para criar resiliência climática”, pontuou. 

O padre Vicente Palotti Zorzo, coordenador do Centro Social de Educação e Cultura Farrapos, trouxe a perspectiva comunitária sobre a gestão de informações e a tomada de decisões em situações de crise. Ele criticou a desconsideração histórica por parte do poder público em relação a alertas sobre desastres climáticos. “A gente esquece a história e não aprende com a história”, disse, referindo-se às previsões de enchentes feitas em 2023 que poderiam ter ajudado a mitigar os danos da tragédia de 2024. O padre também alertou para a disseminação de “fake news” e a falta de lideranças capacitadas para gerir crises ambientais. 

Em um relato emocionado, José Mathias Bins Martins, engenheiro agrônomo e presidente da Cooperativa Arrozeira Palmares, relembrou enchentes em plantações de sua família desde a infância e os aprendizados acumulados em décadas de experiência no campo. No caso das enchentes de 2024, José Mathias lembrou que as águas atingiram a zona sul do Estado dias após o colapso em Porto Alegre, permitindo planejar a proteção da colheita de arroz, que estava armazenada na cooperativa. “Eu soube dos alertas do IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) pela rádio e fui me informar, mas ninguém acreditava que a água poderia chegar na cooperativa. Foi um desafio mobilizar a comunidade, mas nós conseguimos salvar a produção”, relatou, contendo lágrimas. 

A história da mobilização para construir um muro de contenção na coopertiva foi registrada neste vídeo para homenagear os envolvidos:

O hidrólogo Iporã Possantti, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que estava no IPH durante as enchentes de 2024, abordou os desafios da previsão e gestão de riscos hídricos. Ele relembrou que mapas de risco hidrológico produzidos por pesquisadores já haviam sido divulgados antes da enchente, mas que muitas decisões políticas acabaram ignorando esses dados. “Não faltava informação, faltava transformar esses dados em políticas efetivas para proteger a população”, ressaltou. Possantti também comentou sobre a viabilidade de investimentos em muros e diques, questionando se esses sistemas seriam suficientes diante de eventos mais extremos do que os previstos, ou se a adaptação deveria alcançar o planejamento urbano de forma mais ampla, por exemplo, criando áreas verdes no lugar de construções.

A jornalista Juliana Coin, coordenadora da iniciativa Verifica RS, destacou como a desinformação durante a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul dificultou o acesso da população a informações corretas e essenciais para a segurança. Segundo ela, a principal fonte de informação da população afetada era o WhatsApp, onde circulavam tanto dados úteis sobre resgates e abrigos quanto boatos e “fake news”. “A gente precisa se preparar para provocar essa checagem e garantir que a informação verdadeira chegue às pessoas certas, principalmente em momentos de crise”, afirmou Coin. Em meio à crise, o Verifica RS mobilizou uma rede de voluntários e influenciadores digitais, criando um fluxo rápido de verificação e divulgação de fatos confiáveis. Agora, a iniciativa se desdobra em novas frentes de educação midiática contra a desinformação climática.

Por fim, o coronel Evaldo Rodrigues de Oliveira Júnior, diretor-geral da Defesa Civil de Porto Alegre, enfatizou a necessidade de combater a desinformação e melhorar a percepção de risco nas diversas regiões da cidade: “Temos um mar de informações, mas precisamos saber quais dados são confiáveis e quais ações tomar a partir deles”. Ao fazer o balanço dos aprendizados da tragédia do ano passado, Evaldo celebrou novos investimentos, como a instalação de um totem na Vila Farrapos, uma das mais atingidas, com sistema de alerta sonoro e visual interligado à Defesa Civil. Ainda, aproveitou a oportunidade para convidar, publicamente, o padre Vicente Zorzo a colaborar para a criação de uma unidade local da Defesa Civil com a participação da comunidade no bairro, historicamente flagelado por cheias na capital gaúcha.  

“A possibilidade de conectar interesses comuns entre agentes que nem sempre estão nos mesmos espaços de discussão é uma das riquezas deste encontro”, comentou a professora Taís Seibt, que organiza o capítulo porto-alegrense da mobilização internacional na Unisinos desde 2019, como embaixadora de inovação cívica da Open Knowledge Brasil. “Estamos fortalecendo esse espaço de construção coletiva em prol de melhores informações públicas e contribuindo para uma cultura de conhecimento aberto com a realização anual do Open Data Day Porto Alegre”, concluiu.

Workshop mobilizou participantes

Na segunda parte do evento, as professoras da Unisinos Taís Flores da Motta e Cybeli Almeida Moraes propuseram uma discussão em grupos para analisar site e rede sociais, bem como alertas via WhatsApp e SMS das Defesas Civil de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul, e o perfil do projeto VerificaRS no Instagram. “Desde a enchente do ano passado, a gente vem desenvolvendo conhecimento sobre como trabalhar a disseminação dos dados, isto é, como a gente transforma esses dados em uma informação que vai desenvolver um bom processo de comunicação”, comentou a professora Taís Motta.

A atividade foi dividida em três momentos. O primeiro deles foi a introdução da temática, por meio da qual as professoras introduziram os conceitos de “crise” e “emergência” e apresentaram a problemática a ser trabalhada pelos participantes: “de que dados precisamos para mitigar e evitar novos desastres ambientais?”. A partir deste questionamento, os grupos passaram ao segundo momento, devendo discutir e pensar não apenas na falta dos dados, mas também na sua comunicação, acessibilidade e motivação pela qual estes dados são apresentados. Já no terceiro momento, os grupos deveriam apresentar as suas conclusões, a partir do que observaram nas plataformas. 

“Como sou desenvolvedor, tendo a focar na manutenção dos sites. Então o que mais me chamou a atenção foi a questão da usabilidade e da forma como as pessoas olham para a informação que aquele site dá”, comentou o participante Tiago Daitx. 

Para a professora Taís Motta, o principal objetivo da análise crítica provocada pelo workshop é fazer com que os atores envolvidos no processo pensem sobre como disseminam a informação nos seus canais, de maneira a qualificá-la ainda mais para o uso da sociedade. Os resultados do workshop foram entregues, ao final do encontro, para a equipe de comunicação da Defesa Civil de Porto Alegre, como forma de contribuição para discussões internas sobre seus sistemas e linguagens de comunicação com os cidadãos.

*Texto adaptado da produção de Bianca Leite, Giovani Baltezan e Raquel Losekann (estudantes de Jornalismo da Unisinos)

https://www.instagram.com/reel/DHUHyJIubd9/?igsh=bDdkaW4yaXh1dHRp

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