O Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional (DataJor), vinculado ao MBA em Jornalismo de Dados e ao Mestrado em Comunicação Digital do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), prepara o lançamento do e-book “Jornalismo de Dados: das Ciências Sociais à Inteligência Artificial” para dezembro de 2025. A obra se propõe a oferecer referências adaptadas ao contexto brasileiro do jornalismo de dados para o ensino na graduação e iniciantes no tema em geral.
Elaborado sob a curadoria de Taís Seibt, professora do Mestrado em Comunicação do IDP e pesquisadora líder do DataJor, o e-book é o resultado de uma produção coletiva do grupo, contando com a colaboração de especialistas e pesquisadores convidados. A iniciativa nasceu da percepção de desafios persistentes no cenário acadêmico brasileiro, como a necessidade de formação técnica e de bibliografia atualizada em português para oferecer aos estudantes recursos que reflitam a realidade nacional. A coletânea está dividida em quatro partes, abordando desde os conceitos e princípios fundamentais do jornalismo de precisão e feminismo de dados, até os primeiros passos na apuração com base em dados, a contextualização de dados para narrativas qualificadas, e caminhos de especialização na área, como visualização e programação.
“A obra se destaca por reunir o conhecimento de profissionais renomados da academia e do mercado, com diversidade regional e de gênero, garantindo um conjunto de textos qualificados, didáticos e sem o linguajar teórico rebuscado ou o aprofundamento técnico exagerado”, descreve Seibt. “O objetivo é oferecer uma visão panorâmica e inspiradora para neófitos e para quem busca aprimorar suas habilidades, sempre com um olhar atento para o contexto brasileiro”, destaca a organizadora da publicação.
O e-book é uma produção coletiva e voluntária dos autores convidados e integrantes do DataJor, com auxílio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Grupos de Pesquisa 2025/1 do IDP para editoração e divulgação da obra em eventos da área.
Interessados podem se cadastrar através do formulário disponível neste link para receber o e-book assim que publicado.
Leia abaixo o capítulo de apresentação do e-book:
Jornalimo de dados à brasileira
Por Taís Seibt*
O ensino de Jornalismo de Dados cresceu (lentamente) nos cursos de graduação em Jornalismo do Brasil na última década, especialmente pela necessidade de adaptar os currículos às novas diretrizes nacionais, que vigoram desde 2013. Contudo, ainda há lacunas importantes.
Uma delas é a disponibilidade de professores que conciliem conhecimento técnico e prático em Jornalismo de Dados com a titulação acadêmica adequada para dar aulas no ensino superior. Isso faz com que muitos cursos tratem o Jornalismo de Dados apenas como um tópico complementar em alguma disciplina mais genérica, muitas vezes contando com a boa vontade de profissionais convidados para uma palestra, ou então na forma de um curso de extensão ministrado por um especialista externo, atingindo apenas estudantes muito interessados no tema — ou nas horas complementares necessárias para a conclusão do curso.
Alguns professores, por interesse e iniciativa própria, buscam cursos de qualificação oferecidos por entidades como a Escola de Dados e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ou mesmo outras instituições de ensino para encontrar referências úteis para suas aulas, mas o incentivo à formação de professores universitários para o ensino de Jornalismo de Dados é inversamente proporcional à exigência dessas habilidades para o profissional de jornalismo formado nos bancos universitários e à velocidade com que a área se desenvolve, diante de inovações tecnológicas constantes que exigem cada vez mais refino técnico — e ético.
Outra lacuna é a ausência de bibliografia formal atualizada e disponível em português para compor as referências básicas de uma disciplina de Jornalismo de Dados compatível com o nível de graduação. As diretrizes curriculares de muitas universidades determinam que bibliografia básica indicada nas ementas esteja disponível inclusive em livros físicos na biblioteca universitária. Os textos online podem compor a bibliografia complementar, desde que disponíveis em repositórios digitais com a curadoria da instituição. Essa norma, não raro, limita a utilização de ótimas publicações disponíveis gratuitamente na internet, como o Fluxo de Trabalho com Dados, da Escola de Dados, e o Manual de Jornalismo de Dados, traduzido pela Abraji, que são a base didática da maioria dos cursos de formação frequentados por excelentes jornalistas de dados do Brasil.
Sem contar a dificuldade de encontrar obras de referência traduzidas para o português, como é o caso de livros do pioneiro Phillip Meyer, pesquisador estadunidense que cunhou o “jornalismo de precisão”, ou mesmo Paul Bradshaw, professor britânico que é uma referência contemporânea em Jornalismo de Dados com muitos textos online traduzidos para o português por alunos brasileiros que ele mesmo orientou, ou ainda Catherine D’Ignazio, que sustenta o “feminismo de dados” como base para compreender que os dados não são neutros, e sim produtos de relações sociais desiguais. Na pós-graduação, espera-se que estudantes leiam em outros idiomas, mas na graduação, exigir que os alunos leiam textos dessa complexidade em inglês é incompatível com a realidade.
Por fim, também é preciso considerar que ótimas referências internacionais traduzidas para o idioma nacional continuam sendo referências internacionais, ou seja, carregam exemplos e contextos externos, distantes ao cenário brasileiro da profissão. Fica em aberto a adaptação necessária para a realidade local, que felizmente já conta com inúmeros trabalhos de referência em reportagens e projetos especiais com recursos avançados de visualização de dados, goza de alguma maturidade em métodos e práticas para o acesso a dados públicos com uso da Lei de Acesso à Informação — em vigor no Brasil desde 2012 — e oferece boas práticas para criação de bases de dados próprias com finalidade jornalística.
Reunir essa gama de conhecimentos em uma só publicação seria pretensão demais para este e-book, porém não nos impede de oferecer um panorama do Jornalismo de Dados sob a perspectiva brasileira como fio condutor de uma discussão inicial para neófitos no tema. Este é o propósito desta publicação. Dividida em quatro partes, esta obra é uma produção coletiva realizada pelo Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional — DataJor vinculado ao MBA em Jornalismo de Dados e ao Mestrado em Comunicação Digital do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) com a colaboração de especialistas e pesquisadores convidados.
A escolha dos conteúdos e a indicação dos autores considerou a expertise de cada um, buscando a melhor composição entre academia e mercado, com diversidade regional e de gênero, para a produção de um conjunto de textos qualificados para utilização como material de formação acadêmica sem necessariamente carregar um linguajar teórico rebuscado e aprofundamento técnico exagerado.
Como obra que busca oferecer uma visão panorâmica da área, partimos de conceitos e princípios, dispostos na Parte I, onde apresentamos não só o conceito de “jornalismo de precisão”, mas também seu criador, Phillip Meyer, que inaugurou uma prática jornalística inspirada nos métodos das ciências sociais nos Estados Unidos e contagiou jornalistas brasileiros, como Marcelo Soares. No capítulo, ele mesmo conta como a descoberta de um livro de Meyer na biblioteca da universidade mudou para sempre sua prática jornalística. Na mesma esteira, Marília Gehrke, uma das fundadoras do DataJor, detalha como o conceito de “feminismo de dados”, trabalhado por Catherine D’Ignazio não só na teoria, mas de forma aplicada, orienta seu trabalho atual de pesquisa, à luz de teorias feministas para destacar que os dados não são neutros. São textos seminais estrangeiros na perspectiva de brasileiros que desbravaram a área, como outros precursores que começaram a entrevistar planilhas, cujo legado Lívia Vieira homenageia registrando trabalhos de referência para novos jornalistas de dados. Fechamos a primeira parte com Liliane Ito reiterando que dados também são de humanas e que perder o medo das tabelas qualifica o jornalismo em um cenário de desinformação.
Na Parte II, trabalhamos com os primeiros passos, a começar pelas perguntas, com Bárbara Libório destacando a força de hipóteses bem elaboradas na produção de reportagens guiadas por dados. Jamile Santana aponta os caminhos da Lei de Acesso à Informação, a LAI, como forma de desaprisionar dados públicos que servem como matéria-prima para investigações inéditas. Quando os dados necessários não estão públicos, nem sequer são produzidos pelos entes responsáveis, a geração cidadã de dados é uma alternativa para o jornalismo de alto impacto social, como a experiência de Paulo Motta nos ensina. Também fontes abertas, que podem ser recuperadas com técnicas de investigação na web, permitem ir mais a fundo para explorar histórias ocultas, como explica Adriano Belisário. E, como jornalismo de dados ainda é jornalismo, não podemos deixar de lado a ética profissional, problematizada por Samuel Pantoja Lima.
A Parte III desta publicação reforça que os dados têm contexto: de nada adianta dominar todas as técnicas mais acuradas se elas não estiverem a serviço de uma narrativa jornalística qualificada. Marcelo Fontoura explica as operações básicas com dados e o que elas significam em cada história, enquanto Francisco Amorim provoca jornalistas a não se limitarem ao descritivo, mas também explorar oportunidades que os dados oferecem para debater soluções de problemas sociais reveladas pelos números. Thays Lavor apresenta as possibilidades de dados geográficos que ultrapassam a mera produção de mapas para a visualização de informações, assim como Marcela Canavarro explora as informações contidas em redes que conectam pessoas e carregam informações nas plataformas digitais. Beatriz Farrugia fecha a seção com reflexões sobre o diferencial do tratamento jornalístico para todas essas possibilidades de apuração baseadas em dados.
Por fim, a Parte IV convida a pensar nos próximos passos. A visualização de dados é uma especialidade em si no jornalismo de dados, com uma gramática própria que mescla competências de comunicação visual com a interpretação dos dados, como mostra Lucas Thaynan. Já aprender programação abre um leque ainda maior de possibilidades de contar histórias e desvendar mistérios que as técnicas convencionais de jornalismo jamais descobririam, como compartilha Judite Cypreste. Habilidades de busca e análise de dados são pré-requisitos também para fact-checkers, jornalistas especializados que se dedicam a verificar informações que circulam nas plataformas digitais, conforme Marta Alencar. E até mesmo no jornalismo investigativo, os dados são ponto de partida para revelações de grande impacto, como recupera Kátia Brembatti. Os desafios da Inteligência Artificial, nova fronteira do Jornalismo de Dados, embora permeiem diversos outros capítulos, são discutidas mais a fundo por Mayane Batista. Para concluir, Reinaldo Chaves promove uma reflexão sobre as perspectivas profissionais para jornalistas de dados.
Como se vê, trata-se de uma coletânea com abordagens complementares, ainda que esta não seja uma obra completa. O conhecimento em jornalismo de dados é múltiplo, e certamente há mais para se pensar e debater na formação de um profissional. Ainda assim, se os futuros jornalistas de dados brasileiros que estão se formando na graduação puderem começar por aqui, sem dúvida encontrarão fontes qualificadas para se inspirar na profissão. E o melhor: terão a oportunidade de encontrar essas fontes no próximo congresso de jornalismo ou em algum fórum de discussão online, poderão tirar dúvidas e trocar experiências diretamente, sem barreiras geográficas ou linguísticas. Esta é, enfim, uma produção de professores de jornalismo e jornalistas de dados do Brasil para professores de jornalismo e jornalistas de dados do Brasil.
*Professora no Mestrado em Comunicação Digital e no MBA em Jornalismo de Dados do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), e na Escola da Indústria Criativa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é líder do Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional – DataJor (CNPq/IDP) e colabora com o Projeto Temático Horus – Técnicas de Inteligência Artificial para Detecção e Análise de Realidades Sintéticas do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (IC-Unicamp). Sua tese de doutorado “Jornalismo de verificação como tipo ideal: a prática de fact-checking no Brasil” recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2020. LinkedIn | Lattes
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