O Verifica Entrevista segue acompanhando os Dias Temáticos da COP30, que propõem um ousado convite ao mundo: unir esforços em Belém para moldar o futuro. Cada dia busca conectar as negociações ao impacto no mundo real, em uma agenda que une implementação, equidade e urgência.
Nesta série, o Verifica RS tem o objetivo de aproximar os debates globais da Conferência do Clima à realidade climática vivida pelos gaúchos, traduzindo grandes pautas em reflexões e ações locais. Nos dias 10 e 11 de novembro, os temas de adaptação, cidades, infraestrutura, água, resíduos, governos locais, bioeconomia, economia circular, ciência, tecnologia e inteligência artificial ganham destaque — lançando as bases para a prontidão e a resiliência climática.
Entrevista com Pedro Arthur Lucena
Para falar sobre tecnologia e inteligência artificial, o Verifica RS entrevistou Pedro Arthur Lucena, doutorando em Regulação de Tecnologias, mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa, mentor de investimentos pela Associação Brasileira de Startups, professor e advogado.
Pergunta: A sua pesquisa foca em aspectos relacionados às regulações de tecnologia, em especial Inteligência Artificial. Por que isso é importante? Uma regulação da IA também poderia impactar o meio ambiente?
Sem dúvida, a dimensão ambiental é indissociável das políticas de regulação da IA. Todo o ecossistema tecnológico gera emissões de carbono, desde a extração de minerais para a fabricação de placas de vídeo até o alto consumo energético dos data centers e o treinamento de modelos massivos.
A regulação tem de ir além dos aspectos éticos ou de proteção de dados e incorporar modelos que contemplem o ciclo de vida tecnológico e sua correlação com o meio ambiente, reconhecendo que a infraestrutura digital integra a própria crise climática.
Por isso, é tão essencial a COP30 ter incluído na agenda a exigência de que os países considerem o setor de tecnologia em seus compromissos de redução de emissões (NDCs), com transparência, mecanismos efetivos de responsabilização e uma governança orientada pelos princípios da precaução e da justiça intergeracional.
Pergunta: A Inteligência Artificial é vista como uma ferramenta poderosa e faz parte do dia a dia de todos. Na sua visão, quais são os maiores benefícios e malefícios da IA (e da tecnologia em geral) em relação à crise climática?
Há um “postulado” aplicado à tecnologia que diz que “nem toda a tecnologia é boa, nem ruim e tampouco neutra”. Vejo essa mesma lógica aplicada à IA e às infraestruturas que a sustentam. Por exemplo, no campo climático, a IA pode atuar como aliada poderosa, aprimorando previsões meteorológicas, otimizando redes elétricas e reduzindo desperdícios energéticos. O mesmo vale para o combate ao desmatamento, a exemplo de incríveis startups do Norte com aplicações para o setor, ou nas tecnologias para sementes e plantios controlados, etc.
Mas também, e aí há a questão ambígua, para a existência dessas ferramentas, a IA pode ser vista como vetor de agravamento da crise ambiental, devido ao enorme consumo energético e ao uso intensivo de recursos naturais para o funcionamento de data centers e treinamento de modelos massivos. O caso do data center de Eldorado do Sul, aqui no RS, ilustra bem essa ambiguidade. Se, de um lado, simboliza avanço tecnológico e investimento privado, de outro, levanta, da forma como está sendo apresentado, dúvidas sobre o impacto ambiental, o uso de energia e a ausência de parâmetros regulatórios claros.
No Brasil, inexiste, até o momento, uma regulação específica para data centers. O tema é tratado de forma dispersa, em normas de telecomunicações, de segurança da informação e ambientais, sem uma política integrada com padrões de eficiência energética, gestão térmica ou uso de fontes renováveis — uma lacuna normativa que deixa o país vulnerável a uma expansão digital que, ambientalmente, pode ser insustentável a longo prazo.
Pergunta: A tecnologia é uma das pautas na COP30. Do ponto de vista de alguém que estuda a regulação, como a Conferência do Clima pode ampliar a discussão sobre o uso de tecnologia e o que isso tem a ver com o clima?
Vamos aguardar os resultados. A COP30 pode representar um marco em que a regulação tecnológica finalmente será tratada como questão climática, reconhecendo que a governança da tecnologia precisa ser uma agenda global, construída por parâmetros comuns e internalizada nas legislações domésticas.
Quanto maior o número de países comprometidos em harmonizar regras e intenções regulatórias, mais coerente se tornará o diálogo entre meio ambiente, inovação e responsabilidade social. Nesse contexto, é urgente discutir as externalidades da IA, que se estendem para além do impacto energético e ambiental e alcançam também o plano cognitivo, ao moldar consumo, comportamento e percepção coletiva de risco climático.
Incorporar a regulação algorítmica à COP30 é admitir que a crise climática é também uma crise informacional, na qual atenção, dados e energia se entrelaçam.
Sobre o Verifica RS
Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.