Verifica Entrevista | Leia na íntegra as respostas do jornalista Heverton Lacerda sobre transição energética

O Verifica Entrevista continua acompanhando de perto os Dias Temáticos da COP 30 — momentos em que o mundo se reúne em Belém para transformar discussões em ações concretas para o futuro. A cada dia, a conferência busca reduzir a distância entre os acordos internacionais e os impactos que já moldam a vida das pessoas, guiando a agenda por implementação, equidade e urgência.

Nesta série, o compromisso do Verifica RS é aproximar esses debates globais da realidade climática enfrentada pelos gaúchos, convertendo temas amplos em análises e possíveis caminhos locais. Nos dias 14 e 15 de novembro, o foco recai sobre mudanças profundas nos sistemas de energia, indústria, transporte, comércio, finanças, mercados de carbono e emissões de gases não-CO₂ — um esforço alinhado ao objetivo internacional de triplicar as fontes renováveis, dobrar a eficiência energética e conduzir uma transição justa e planejada para além dos combustíveis fósseis.

Entrevista com Heverton Lacerda


O Verifica RS entrevistou Heverton Lacerda, jornalista, ambientalista, presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele possui especialização em Ciências Humanas — Sociologia, História e Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e mestrado em Comunicação pela UFRGS. É cofundador do Instituto de Comunicação Social e Cidadania (Incomun), criado em 2005.

Pergunta: As recentes enchentes causaram grandes falhas no fornecimento de Energia no RS. Pensando em sistemas de Transição Energética, como a instalação de painéis solares em residências ou pequenos comércios pode diminuir a dependência da rede centralizada e aumentar a autonomia energética? E o quão viável, realista e prático isso é no dia a dia da população gaúcha?

O presidente Lula afirmou, na plenária geral dos líderes da cúpula do clima em Belém, no dia 7 de novembro, que as definições tomadas em relação ao setor energético definirão o sucesso ou o fracasso da questão climática. Não resta dúvida que os sistemas atuais de produção e consumo de energia são, entre as atividades humanas, os grandes responsáveis pelas alterações climáticas, em conjunto com as mudanças dos modos de uso e exploração do solo. 

No entanto, a solução real que precisa ser alcançada não se restringe apenas ao clima, mas envolve uma cadeia complexa muito mais ampla, relacionada à compreensão ecológica sobre a vida. O desequilíbrio climático é apenas uma face do problema, a que ganhou mais visibilidade atualmente. Mas esse olhar é insuficiente para compreender o que, por exemplo, José Lutzenberger, primeiro presidente da Agapan, chamava de “sinfonia da vida”. Tampouco, essa visão tecnocrática, reducionista, se aproxima da cosmovisão essencial dos povos originários, que resistem enquanto perecem e, ao mesmo tempo, tentam ensinar a arte da compreensão do pertencimento e do bem-viver integrado à natureza.

As propostas de soluções tecnocráticas podem até surtir algum efeito de curto prazo — importantes diante da atual urgência —, mas não são ecologicamente sustentáveis. Além disso, algumas propostas tendem a ampliar a injustiça climática, na medida em que não consideram as distintas realidades regionais e a própria desigualdade socioeconômica. É o caso das soluções individuais disponíveis nos dias de hoje para geração de energia off grid. 

Os painéis solares e as baterias têm altos custos financeiros e ecológicos. Além de gerarem impactos no processo de produção (desde a extração de minérios, transporte, etapas de fabricação e instalação), não são acessíveis para todos. Os custos ambientais desses equipamentos são socializados, à medida que impactam ecossistemas sensíveis, enquanto os benefícios são acessíveis apenas aos que podem pagar. Ou seja, geram impactos e ampliam a injustiça social e climática.

Pergunta: Vimos que a infraestrutura energética centralizada do estado é vulnerável a inundações. Pensando na Transição Justa, quais são os principais investimentos em modernização e proteção que o Rio Grande do Sul deve priorizar para garantir que as redes de distribuição atuais resistam melhor aos danos físicos causados por eventos extremos?

Os investimentos imprescindíveis são na proteção ambiental e na reversão dos estragos causados ao meio ambiente. Na mesma linha da resposta anterior, entendo que a solução não está na tecnocracia, ou seja, na pretensão de que novas tecnologias humanas darão conta de resistir à degradação do planeta. Isso também já foi identificado pela Agapan em suas mais de cinco décadas de atuação.

A tendência, ao persistirem nessa linha de pensamento e ações, seria a necessidade de estar sempre “reinvestindo” e “modernizando”, o que resultaria em novas soluções paliativas, que, por sua vez, redundariam em mais impactos ecológicos: um ciclo destrutivo inconveniente, que só teria fim com o colapso planetário. Vide o exemplo dos data centers. Agora dizem que são imprescindíveis porque “seremos dependentes” de I.A. Como eles consomem muita energia, nunca teremos o suficiente para alimentá-los, pois novas tecnologias mais consumidoras de energia virão, tipo a computação quântica, que produz muito calor e precisa ser resfriada artificialmente. O que mais virá pela frente? Não importa, pois seguirão esse modelo de “quero mais e mais” energia.

A tecnologia precisa respeitar a natureza e pedir licença para se instalar junto a ela, sem a agredir. Não é isso o que vem acontecendo desde a revolução industrial, marco inicial do processo de degradação do planeta que resultou na atual crise climática. 

Em relação ao Rio Grande do Sul, onde o bioma Pampa já perdeu — e vem perdendo — grande parte de sua vegetação nativa para monoculturas agrícolas de alto impacto ambiental, os investimentos precisam ser focados na recuperação de Áreas de Preservação Permanente (matas ciliares e de encostas, banhados), na proteção das bacias hidrográficas e na transição do modelo agrícola com base em químicos industriais para o modelo agroecológico, que produz alimentos em um sistema que gera empregos de boa qualidade e remuneração com respeito aos produtores e aos consumidores, os parceiros urbanos desse tipo de agricultura viva. É importante salientar que, no Brasil, as mudanças no uso da terra impactam mais a atmosfera do que a queima de combustíveis fósseis, ainda que a soma dos dois amplie o problema. 

Pergunta: A COP debate o futuro da energia. Na sua visão, como as empresas de distribuição de energia do Rio Grande do Sul podem incorporar o risco de eventos extremos (como a recorrência de inundações) em seu planejamento de longo prazo, fazendo a transição de um modelo de ‘reparação pós-crise’ para um modelo de ‘infraestrutura resiliente e adaptável’? E qual os possíveis impactos disso na população gaúcha?

Em primeiro lugar, é preciso admitir que os sistemas atuais são frágeis frente às mudanças climáticas, especialmente em relação ao que está por vir, diante de prognósticos extremamente preocupantes. No entanto, qualquer planejamento prescinde do estabelecimento de prazos. De forma imediata, a infraestrutura elétrica instalada já está posta e depende da sorte de não estar nos locais onde os eventos climáticos extremos ocorrerão.

A médio e longo prazo, pode-se dizer que essas empresas precisam, em primeiro lugar, aceitar a realidade climática e, a partir disso, planejar suas novas estruturas. Mas não basta só isso, pois não podemos pensar apenas em adaptação e resiliência. É preciso ter claro que a resolução da questão climática não é algo que se resolve com iniciativas individuais ou de setores. É preciso mudar radicalmente o pensamento que alimenta o atual modelo socioeconômico ecocida, baseado em uma necropolítica sedimentada no individualismo, na desigualdade social e na falta de empatia planetária.

A solução só pode ser encontrada com envolvimento social e entre nações. Para isso, os tomadores de decisões, tanto governos, quanto corporações, precisam agir com responsabilidade socioambiental, transparência e sentido comunitário. Sem o envolvimento da população, não encontraremos soluções adequadas e suficientes. Empresas e governos precisam buscar mais envolvimento para encontrar soluções com foco nas pessoas, não no interesse prioritário do lucro. Esse envolvimento pode gerar a tão sonhada sustentabilidade verdadeira, duradoura, protetora e tranquilidade para todos.

Sobre o Verifica RS


Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.