Rede que nasceu em meio à crise de maio de 2024 unindo jornalistas, pesquisadores, influenciadores e instituições, agora investe em iniciativas de educação midiática no Rio Grande do Sul
O marco de dois anos de criação da iniciativa Verifica RS, em maio de 2026, veio com uma janela aberta para o futuro. Em meio à emergência das enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, o projeto nasceu da urgência de contrapor a enxurrada de notícias falsas que prejudicava operações de resgate e doações, ampliando a crise humanitária. O que começou como uma força‑tarefa voluntária puxada pela iniciativa de três jornalistas inquietas com a situação, agora ganha novo fôlego para formar uma rede de educação midiática voltada à checagem de fatos na cobertura ambiental por meio de um projeto de pesquisa e extensão da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).
Liderado pelas jornalistas Luiza Fritzen e Juliana Coin, que contaram com suporte da professora e pesquisadora Taís Seibt na estruturação da iniciativa voluntária, o Verifica RS foi impulsionado pela Afonte Jornalismo de Dados e pelo curso de Jornalismo da Unisinos. A mobilização cresceu rapidamente: cerca de 50 voluntários passaram a se organizar em equipes de redação, produção de arte, multimídia e difusão. A estratégia inicial foi replicar conteúdos verificados por agências especializadas, como a Lupa, distribuindo as checagens nos canais @afontejor e @jornalismounisinos no Instagram. Em poucas semanas, o projeto ganhou canais próprios no Instagram e TikTok (@rsverifica) e passou a produzir conteúdos em formatos adaptados para WhatsApp — áudios curtos e resumos em linguagem simples para circular diretamente em grupos de moradores, onde os formatos tradicionais de checagem nem sempre conseguiam penetrar.
A rede adotou um sistema de cinco etiquetas para sinalizar os conteúdos: Verdadeiro, Falso, Sem Comprovação, Saiba Mais e Institucional. O foco principal sempre foi a desinformação sobre serviços — doações, resgates, abrigos, saúde, abastecimento de água e políticas públicas de apoio às vítimas. Os conteúdos foram produzidos nos mais variados formatos: cards para feed, stories, reels, vídeos para TikTok, áudios curtos e cards para WhatsApp, além de lives.
A força da rede
O Verifica RS se estruturou como uma rede de distribuição de informação verificada articulando instituições de ensino, grupos de pesquisa e empresas de comunicação. Entre os parceiros, vieram o Instituto de Cultura Digital da Unisinos, o Laboratório MIDIARS (UFPel/UFRGS), o Desinfomídia (UFSM), o Deixa Vírgula (Feevale), o Coletivo Bereia, o Projeto Apura Verdade, a AletheiaFact.org, o Mentira Tem Preço e o OrientaRS. Com apoio técnico da Aletheia, a iniciativa desenvolveu o assistente virtual Verifica Pra Mim para receber notificações de conteúdos suspeitos. A rede também recebia notificações de conteúdo suspeito por formulário próprio, formando um repositório para desenvolvimento de pesquisas.
O projeto inovou ao mobilizar influenciadores digitais como embaixadores. Nomes como a jornalista Gabriella Bordasch, o âncora Cassius Zeilmann, a influenciadora Débora Salvi, o músico Thedy Corrêa (Nenhum de Nós), o ator Rafael Pimenta, a jornalista Carol Anchieta, o publicitário Jean Philippe Rosier, além de Micheli Torrico, Luke Xavier e Chris Gonzatti passaram a reproduzir os conteúdos verificados em seus próprios canais, ampliando o alcance para públicos que as agências de checagem tradicionais dificilmente atingiriam.
O Verifica RS acumulou repercussão significativa em veículos e seminários nacionais e regionais. O portal Beta Redação publicou matéria destacando o nascimento do projeto em momento de crise. O podcast Brasil de Fato abriu espaço para o tema. A iniciativa também foi convidada para a Semana Brasileira de Educação Midiática, organizada pela Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal (Secom), destacando sua atuação na comunidade local.
Da emergência à resiliência
Passada a emergência inicial, a iniciativa foi mudando o curso de suas publicações, buscando apoiar a comunidade com informações sobre os desdobramentos pós-enchente com serviço sobre políticas sociais e obras públicas para pessoas e cidades atingidas. Os voluntários seguiram conectados em encontros e eventos sobre o tema, como o Cerveja com Dados e o Open Data Day Porto Alegre.

Durante a COP30, realizada em Belém (PA), a rede de voluntários foi mobilizada novamente para produzir entrevistas com especialistas regionais, buscando conectar os tema em voga no encontro mundial sobre a mudança do clima com as urgências do sul do Brasil.
O próximo passo é avançar na formação de jornalistas locais, comunicadores públicos e influenciadores digitais dos 34 municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre para checar informações na cobertura ambiental. Esse é o mote do projeto “Jornalismo local contra a desinfomação climática”, que vai mapear o ecossistema de mídia local e promover oficinas com profissionais no campus Porto Alegre e São Leopoldo da Unisinos. O projeto de pesquisa e extensão coordenado pela professora Taís Seibt parte da experiência do Verifica RS para avançar na consolidação de uma rede de comunicação local qualificada, como escudo contra desinformação em cenários de emergência climática.
Nesta primeira fase, um formulário está aberto para mapear jornalistas, comunicadores e influenciadores locais interessados na formação. As oficinas, que serão gratuitas, ocorrem a partir de agosto. Comunicadores interessados podem se registrar neste link.
Em paralelo, o Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional (DataJor), vinculado ao Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), vai apoiar a produção de conhecimento sobre o tema a partir de um convênio firmado com o Observatório Lupa, analisando as características da desinformação checada pela agência no período das enchentes e as ferramentas utilizadas para desbancá-las no intuito de colaborar para direcionar as ações de formação com profissionais locais.
Veja os destaques da linha do tempo do Verifica RS
- Maio de 2024 – Criação da rede de voluntários em meio às enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul para compartilhar conteúdo verificado.
- Outubro de 2024 – Lançamento do assistente virtual “Verifica Pra Mim?”, em parceria com a AletheiaFact.org, permitindo que qualquer pessoa envie denúncias de notícias falsas para checagem. A ferramenta seria posteriormente integrada ao WhatsApp durante a cobertura da COP30.
- Março de 2025 – O Verifica RS foi analisado como estudo de caso no Open Data Day Porto Alegre 2025, evento que debateu a qualidade das informações públicas sobre alertas de enchentes. Os canais digitais da Defesa Civil de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, além do Verifica RS, foram avaliados pelos participantes.
- Agosto de 2025 – O Cerveja com Dados Porto Alegre 2025 dedicou sua edição à crise climática e catástrofes ambientais com foco no Rio Grande do Sul, com mais de 100 inscrições.
- Novembro de 2025 – Cobertura online da COP30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Belém (PA). Com um recorte direto no Rio Grande do Sul, o projeto traduziu os debates globais para a realidade local. A cobertura contou com parcerias estratégicas do Greenpeace POA e da AletheiaFact.org, integrou o Mutirão COP30 do Governo Federal e lançou a série “Verifica Entrevista”, com depoimentos diários de especialistas gaúchos sobre temas como adaptação urbana, racismo ambiental, transição energética, educação pós‑enchentes, regulação de IA e justiça climática. Um novo canal de WhatsApp foi lançado para divulgação dos conteúdos.
- Maio de 2026 – O Verifica RS passou a integrar projeto de pesquisa e extensão da Unisinos com apoio da Fapergs. Intitulado “Jornalismo local contra a desinformação climática”, o projeto está mapeando o ecossistema de notícias e a atuação de influenciadores digitais nos 34 municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre. A iniciativa oferecerá treinamento gratuito a jornalistas, comunicadores e influenciadores da região em fact‑checking e prebunking, com formações previstas para o segundo semestre de 2026 em Porto Alegre e São Leopoldo.
Para saber mais sobre o projeto, siga @rsverifica no Instagram.