O Verifica Entrevista entra em campo como a nossa lupa para a COP 30. A série de entrevistas veiculadas diariamente irá acompanhar a pauta do calendário de dias temáticos da Conferência do Clima através de entrevistas com especialistas gaúchos.
O Verifica RS entende que, enquanto a COP 30 lida com assuntos globais, o nosso público, a comunidade gaúcha atingida por eventos climáticos extremos, vive a urgência do local. Com o Verifica Entrevista, vamos puxar esses temas globais e aplicá-los diretamente à crise climática daqui.
Seja no debate sobre a infraestrutura das cidades ou na necessidade de energia limpa, nosso objetivo é um só: sensibilizar a comunidade, mostrando que Belém e Porto Alegre estão conectadas pela mesma preocupação: o futuro diante das mudanças climáticas.
Entrevista com Geisa Zanini Rorato
Para conversar sobre adaptações e infraestrutura das cidades, o Verifica RS entrevistou a arquiteta e urbanista Geisa Zanini Rorato, que é professora do Departamento de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, integra o Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional – PROPUR da UFRGS e o Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas – PPGPP também da UFRGS. Ela possui experiência em planejamento urbano e regional, na elaboração de planos diretores e de planos setoriais, entre outras experiências em projetos urbanos. Tem realizado pesquisas sobre as relações interfederativas e o planejamento urbano e regional e sobre as mudanças climáticas e o planejamento urbano e regional.
Pergunta: o conceito de adaptação climática estará em alta na COP30. Olhando para o Rio Grande do Sul e os desafios recentes com enchentes, quais são as mudanças mais urgentes que as cidades gaúchas precisam implementar em sua infraestrutura para proteger as pessoas?
Acredito que a principal mudança que precisamos promover é uma transformação na forma de pensar. Não podemos continuar agindo com a mesma lógica do século XX, quando a natureza era vista como algo a ser dominado pela ação humana. Essa visão nos trouxe até a crise ambiental que vivemos hoje. Basta olhar para as soluções que moldaram nossas cidades: rios canalizados, áreas alagáveis aterradas, sistemas de contenção de cheias pensados apenas para “conter” a natureza, e não para conviver com ela.
É necessário adotarmos uma nova racionalidade — uma que una as questões urbanas e ambientais em vez de colocá-las em lados opostos. Precisamos repensar como ocupamos o território, tanto nas áreas urbanas quanto nas rurais. E isso não é apenas um desafio técnico, mas também político e cultural.
Devemos cobrar dos nossos gestores políticas que realmente protejam as áreas que exercem funções ecossistêmicas fundamentais, como nascentes, margens de rios e arroios, banhados e regiões de várzea. Esses espaços não são “vazios urbanos” à espera de ocupação; são parte essencial do equilíbrio ambiental que garante qualidade de vida a todos nós.
Sabemos que o crescimento das cidades pressiona cada vez mais esses ambientes frágeis, por isso o papel do poder público como regulador e fiscalizador é indispensável. Mas também é preciso lembrar que a responsabilidade não é só do Estado. Cada cidadão tem um papel importante na construção das soluções e, principalmente, na cobrança para que elas saiam do papel.
Outra mudança fundamental é que as cidades gaúchas fortaleçam a cooperação entre si. Os impactos das mudanças climáticas não reconhecem fronteiras político-administrativas — as enchentes recentes mostraram isso. Portanto, este é um momento decisivo para construirmos uma nova cultura de cooperação entre os municípios, fortalecendo as instâncias supramunicipais de planejamento e gestão — como as regionais e metropolitanas — e promovendo uma articulação mais efetiva entre União, Estados e Municípios.
Nada disso, porém, acontece sem vontade política. É preciso que nossos gestores assumam a responsabilidade de liderar essa transformação. Nesse contexto, considero a COP30 especialmente relevante: ela oferece um espaço de diálogo internacional capaz de alinhar metas e definir caminhos concretos para enfrentar a crise climática. O Brasil — e, em especial, suas cidades — precisa estar preparado para seguir esses horizontes e colocá-los em prática.
Pergunta: o manejo da água é vital por aqui. Que tipo de solução pode ser adotada para absorver melhor o excesso de chuva e aumentar nossa segurança hídrica? Essa alternativa é viável para ambos, pequenos e grandes municípios?
Como já mencionei, é fundamental construir uma nova racionalidade que integre as dimensões urbanas e ambientais. Essa mudança de visão permitirá desenvolver um novo entendimento sobre a ocupação do espaço urbano. Para tornar nossas cidades mais seguras, precisamos aprender a conviver melhor com a natureza — e não a combatê-la.
Na prática, isso significa preservar e ampliar as áreas com vegetação nativa, proteger as regiões de várzea e garantir a expansão das áreas verdes dentro das cidades, compatibilizando suas funções ambientais e urbanas. A criação de corredores ecológicos é um bom caminho, assim como a adoção de soluções baseadas na natureza para melhorar a drenagem urbana.
Neste sentido, estamos desenvolvendo um projeto de pesquisa na Faculdade de Arquitetura para a implantação de Soluções Baseadas na Natureza – SBNs para a resiliência climática na Região Metropolitana de Porto Alegre, que envolvam a implantação de corredores ecológicos de maneira integrada e continuada, considerando a perspectiva regional, ou seja, não se limitando aos limites municipais. Esse projeto foi um dos selecionados na Chamada Resiliência Rio Grande do Sul (parceria entre Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul – Fapergs, Fundação Araucária e Fundação Grupo o Boticário).
Também precisamos repensar a forma como construímos. Nossas edificações podem — e devem — incorporar soluções que favoreçam a absorção da água da chuva, por exemplo. Isso vale tanto para o espaço público quanto para os lotes privados. Cada escolha conta, e cada projeto urbano ou construção pode contribuir para tornar nossas cidades mais sustentáveis e resilientes.
Pergunta: com o debate sobre transporte e transição na pauta, que mudanças podem ser feitas nas cidades para reduzir a poluição sonora e a emissão de gases do transporte (público ou individual), mantendo a mobilidade eficiente? Isso passa por uma revisão do Plano Diretor ou é possível fazer ajustes com a infraestrutura que já temos?
Aqui estamos falando de soluções para adaptação às mudanças climáticas, e não apenas de mitigação. Nesse contexto, já existem diversas estratégias conhecidas que podem ser implementadas, mas, mais uma vez, é fundamental contar com vontade política e com a pressão da população para que elas saiam do papel.
Uma dessas soluções é a melhoria e qualificação do transporte coletivo, tornando-o uma alternativa real e atraente ao transporte individual. Mas melhorar a mobilidade urbana não se resume apenas a veículos e linhas de ônibus; envolve repensar como ocupamos a cidade. É preciso olhar para as causas dos deslocamentos: reduzir a necessidade de viajar longas distâncias, garantindo acesso a serviços, equipamentos urbanos e oportunidades mais próximas das pessoas, é parte essencial dessa equação.
O Plano Diretor, que possui força de lei nas cidades, desempenha um papel central nesse processo. Por isso, é fundamental que ele incorpore estratégias claras para orientar o uso e a ocupação do território urbano, promovendo cidades que convivam melhor com a natureza, ofereçam um transporte coletivo eficiente e garantam uma ocupação do espaço que assegure qualidade de vida a todos. Dessa forma, construiremos cidades mais eficientes, acessíveis e resilientes às mudanças climáticas.
Sobre o Verifica RS
Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.