Verifica Entrevista | Leia na íntegra as respostas da diretora Evelize Krüger Peres sobre educação após as enchentes de 2024

O Verifica Entrevista continua acompanhando os Dias Temáticos da COP30, que convocam a comunidade internacional a se reunir em Belém para construir caminhos para o futuro. Cada dia da programação procura aproximar as negociações do impacto concreto na vida das pessoas, articulando implementação, equidade e senso de urgência.

Nesta série, o Verifica RS busca conectar as discussões globais da COP à realidade climática enfrentada pelos gaúchos, transformando grandes pautas em reflexões e ações voltadas ao território. Nos dias 12 e 13 de novembro, entram em foco os temas de saúde, empregos, educação, cultura, justiça e direitos humanos, integridade da informação e trabalhadores, além da apresentação do Balanço Ético Global — destacando a importância da equidade e da responsabilidade moral na condução das decisões climáticas.

Entrevista com Evelize Krüger Peres


O Verifica RS conversou com Evelize Krüger Peres, professora da rede municipal de Guaíba desde 2000 e atualmente diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Anita Garibaldi. Ela é formada em Licenciatura em Matemática desde 2009, pós-graduada em Didática, Mídias Digitais e Matemática pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Gestão Escolar e Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É mestre no Ensino da Matemática pela UFRGS e apaixonada pela educação. Confira a entrevista:

Pergunta: Durante as enchentes de 2024, muitas escolas se transformaram em pontos de apoio e acolhimento das comunidades. Como foi, na prática, viver essa transição entre o espaço de ensino e o espaço de cuidado?

Durante as enchentes de 2024, vivi uma das experiências mais intensas e transformadoras da minha vida. Ver a escola se transformar, da noite para o dia, de um espaço de ensino para um espaço de acolhimento, foi algo que jamais esquecerei.

No início, havia muita incerteza e medo. As salas de aula, que antes abrigavam livros, risadas e aprendizados, passaram a receber colchões, roupas e histórias de quem perdeu quase tudo. Foi emocionante perceber que, mesmo diante do caos, havia solidariedade em cada gesto — um abraço, um prato de comida, uma palavra de conforto.

Professores, funcionários e voluntários se uniram como uma verdadeira família. Cada um ajudava como podia: organizando doações, preparando refeições, cuidando das crianças ou simplesmente ouvindo quem precisava desabafar. A rotina escolar deu lugar a uma rotina de cuidado, empatia e reconstrução.

Aprendi que a escola vai muito além das paredes e das aulas. Ela é um espaço vivo, que acolhe e protege, que ensina pelo exemplo e fortalece a comunidade em seus momentos mais difíceis. Ver o quanto as pessoas se apoiaram umas nas outras me fez acreditar ainda mais no poder da educação e da solidariedade.

Foi um período difícil, mas também cheio de aprendizado e humanidade. Saí dessa experiência com o coração mais sensível e com a certeza de que cuidar também é uma forma de ensinar.

Pergunta: Depois de um desastre, reconstruir uma escola vai muito além das paredes. Quais estratégias vocês encontraram para manter o vínculo com os alunos e retomar o processo educativo em meio às perdas e à instabilidade? Você notou algum impacto emocional nos alunos relacionado ao evento extremo depois do que aconteceu?

Sim, depois do desastre, percebemos que reconstruir a escola ia muito além de recuperar o prédio ou repor o material perdido — era, acima de tudo, reconstruir laços, restabelecer a sensação de pertencimento e segurança, e cuidar das pessoas.

Quando as aulas recomeçaram, adaptamos o ritmo. Entendemos que o emocional precisava caminhar junto com o pedagógico. As atividades foram pensadas para valorizar a cooperação, o cuidado com o outro e o pertencimento à comunidade escolar.

Em relação aos impactos emocionais, eles foram muito visíveis. Muitos alunos demonstraram medo da chuva, ansiedade e dificuldade de concentração. Alguns se mostravam mais introspectivos; outros, mais agitados. Foi essencial o apoio da equipe pedagógica e, quando possível, de profissionais da área da saúde mental.

A crise climática deixou marcas, mas também ensinou muito. A escola se tornou um espaço de esperança e reconstrução coletiva, onde cada pequeno passo — um sorriso, uma aula retomada, um reencontro — foi celebrado como uma grande conquista.

Pergunta: A COP30, que acontece em Belém, tem discutido como fortalecer a resiliência climática em diferentes regiões do país. A partir da sua experiência em Guaíba, o que você acredita que o mundo precisa compreender sobre a realidade das escolas e educadores que vivem a crise climática no dia a dia?

A partir da minha experiência em Guaíba, acredito que o mundo precisa compreender que, quando falamos em crise climática, não estamos tratando apenas de números, gráficos ou metas ambientais — estamos falando de pessoas, de comunidades inteiras e, principalmente, de escolas, que se tornaram verdadeiras linhas de frente diante dos desastres.

Durante as enchentes, percebi que a escola é muito mais do que um espaço de ensino: ela é refúgio, abrigo, ponto de apoio e símbolo de esperança. Enquanto muitos lugares fecham diante da tragédia, a escola abre as portas, acolhe, organiza doações, alimenta, conforta e tenta manter viva a chama da aprendizagem mesmo em meio à dor.

Os educadores, por sua vez, se tornam agentes humanitários. Precisam lidar com suas próprias perdas e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente disponíveis para acolher seus alunos. Trabalham em condições precárias, improvisando materiais, adaptando currículos e buscando reconstruir não só o espaço físico, mas também o emocional de cada criança e jovem.

Por isso, acredito que o mundo precisa reconhecer a importância da escola como espaço de resiliência climática. Investir em educação ambiental, infraestrutura segura e formação de educadores preparados para lidar com crises não é um luxo — é uma necessidade urgente.

As escolas que enfrentam enchentes, secas ou outras tragédias climáticas ensinam, na prática, o que é solidariedade, empatia e reconstrução coletiva. E é essa vivência, tão real e humana, que o mundo precisa escutar — porque nelas estão as lições mais sinceras sobre o que significa resistir e recomeçar.

Sobre o Verifica RS


Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.