Verifica Entrevista | Leia na íntegra a entrevista com o engenheiro agrônomo José Mathias Bins Martins sobre administração de organizações em momentos de crise climática

O Verifica Entrevista continua acompanhando os Dias Temáticos da COP30, que mobilizam o mundo a se encontrar em Belém para transformar vivências em ação climática urgente. Cada dia da conferência busca aproximar as negociações globais do impacto real no cotidiano, combinando implementação, equidade e urgência.

Nesta série, o Verifica RS segue comprometido em conectar os debates internacionais da Conferência à realidade climática vivida pelos gaúchos, traduzindo pautas amplas em reflexões e caminhos locais. Nos dias 17 e 18 de novembro, entram em destaque debates sobre florestas, oceanos e biodiversidade, além das soluções voltadas aos pequenos e médios empreendedores, em uma agenda que valoriza também povos indígenas, comunidades locais e juventudes.

Entrevista com José Mathias Bins Martins


O Verifica RS entrevistou José Mathias Bins Martins, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 1988, atua como produtor de arroz e soja e como pecuarista na Fazenda Cavalhada. Em 1997, fundou a Sementes Cavalhada, em Mostardas (RS). Atualmente, é diretor do Conselho Regulador da Associação dos Produtores de Arroz do Litoral Norte do RS (Aproarroz), diretor regional da Planície Costeira Externa da Federação das Associações de Arrozeiros do RS (Federarroz) e presidente da Cooperativa Arrozeira Palmares desde 2019. Nesta entrevista, ele fala sobre como administrar organizações — empresas ou cooperativas — em momentos de crise climática.

Pergunta: As enchentes geraram uma grande onda de solidariedade, mas também de desinformação. Como foi a sua experiência e o que mais te marcou durante a enchente, tanto no sentido da solidariedade quanto das informações falsas? Conte um pouco sobre a sua vivência em 2024 e em 2025 (um ano depois do ocorrido).

Sobre a solidariedade, liderei um mutirão para proteger a Cooperativa e a minha propriedade. Na Cooperativa houve vários relatos que me emocionaram muito. Trabalhamos 24 horas sem parar, e o pessoal que se organizou para distribuir alimentação para os desabrigados fazia questão de nos levar sempre uma marmita quente, preparada com todo carinho. Outro relatou que o sustento dele e do pai sempre veio da Cooperativa e que, em 2008, quando a Cooperativa pegou fogo, ele não pôde fazer nada, mas desta vez viu que era possível ajudar e foi um dos responsáveis pelo êxito. Outro estava com a casa alagada e me disse que, embora lá já estivesse tudo perdido, na Cooperativa ele ainda poderia contribuir. Enfim, são vários relatos. Não houve uma pessoa a quem pedi ajuda que se negasse — pelo contrário. Essa união e força foram fundamentais.

Pergunta: A sua história, a meu ver, mostra que o planejamento e a confiança em instituições como o IPH salvaram a safra da cooperativa em 2024. Para outros empreendedores e cooperados do agronegócio no Rio Grande do Sul que enfrentam o mesmo risco, qual é a lição mais importante sobre tomada de decisão que o senhor tirou dessa experiência?

Na verdade, a maioria das pessoas não acreditou nos alertas dos órgãos oficiais — e claro que muitas delas não tinham o que fazer. No nosso caso, como tenho bastante experiência com enchentes porque estamos à beira da Lagoa dos Patos e sempre ouvi meu pai relatar tudo o que passou desde 1941, fiquei em alerta desde setembro de 2023, quando a lagoa subiu a níveis que não subiam havia muitos anos.

Quando começaram as chuvas, fomos acompanhando as notícias, especialmente da Defesa Civil e do IPH, que me colocaram em alerta máximo. Como a enchente na lagoa chegaria depois, tomamos uma iniciativa rápida que, felizmente, teve êxito.

Pergunta: Diante dos eventos de 2024, a agricultura do Rio Grande do Sul está alinhada com as condições climáticas de longo prazo?

Essa pergunta é difícil, pois não estamos falando só de enchente, mas também de seca, e ainda precisamos entender melhor se estamos falando de ciclos ou de mudanças climáticas. Mas é fundamental incentivar o manejo correto do solo, como o plantio direto; ampliar o incentivo para irrigação; e melhorar as previsões climáticas, tornando-as mais precisas e com maior antecedência.

Sobre o Verifica RS


Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.