Verifica Entrevista | Leia na íntegra a entrevista com a bióloga Felícia Miranda Fischer sobre biodiversidade e resiliência climática

No Verifica Entrevista, seguimos atentos aos Dias Temáticos da COP30, que mobilizam o mundo em Belém para transformar experiências e evidências em respostas concretas à crise climática. Cada jornada da Conferência aproxima o debate internacional da vida cotidiana, articulando equidade, urgência e ação real.

Nesta cobertura, o Verifica RS reafirma seu compromisso de conectar a agenda global da COP30 à realidade climática do Rio Grande do Sul. Nos dias 17 e 18 de novembro, entram em foco a gestão do planeta e das comunidades, com atenção especial às florestas, aos oceanos e à biodiversidade, bem como ao papel vital de povos indígenas, comunidades tradicionais, juventudes e dos pequenos e médios empreendedores — protagonistas de soluções que respeitam e regeneram a natureza.

Entrevista com Felícia Miranda Fischer


O Verifica RS conversou com Felícia Miranda Fischer, bióloga, mestre e doutora em Ecologia pela UFRGS, e atuou no Masaryk University e Centro de Investigaciones sobre Desertificación. Na entrevista, Felícia discute o papel funcional da biodiversidade na resiliência climática e como eles ajudam a compreender a dinâmica ecológica do Estado.

Pergunta: A biodiversidade é pauta na COP30. De que forma a restauração dos nossos biomas (como a Mata Atlântica ou o Pampa) pode atuar como uma medida de prevenção contra futuros eventos extremos, protegendo, por exemplo, nossas áreas urbanas contra inundações?

A biodiversidade, bem como a manutenção de ecossistemas naturais, é chave na resiliência climática. Ecossistemas naturais fornecem os chamados “serviços ecossistêmicos”, que são essenciais na ciclagem de carbono e nutrientes, na manutenção da qualidade do solo e da água, dentre outros inúmeros processos. Contudo, em se tratando de medidas de prevenção, gostaria de destacar que a restauração configura uma medida de remediação, complexa e cara.

Neste tema, é importante ter em mente que “prevenir é melhor do que remediar”. Ou seja, é muito mais eficiente investir esforços em evitar a destruição dos ecossistemas naturais do que tentar recuperá-los. Pode parecer um pouco redundante falar disso, mas o que estamos vendo hoje, mesmo após os desastres do ano passado, é que as áreas verdes continuam sendo destruídas em uma escala alarmante.

Um exemplo muito atual é o da área de Mata Atlântica no Jardim Sabará, em Porto Alegre, mas podemos ver muitos outros, inclusive em áreas críticas como banhados, beiras de rios e encostas. Essas ações deveriam ser impedidas porque, uma vez que se perde o ecossistema, todas aquelas funções também se perdem. Recuperar essas áreas acaba sendo muito difícil, custoso e demorado, sem garantias de que se consigam estabelecer todas as funções.

Pergunta: A proteção da biodiversidade é frequentemente associada a áreas remotas, mas ela é vital nas cidades. De que forma o cidadão gaúcho pode, de maneira simples, promover a biodiversidade (como plantando espécies nativas ou criando jardins de chuva) em seu próprio bairro ou moradia, tornando o ambiente urbano mais agradável e mais capaz de lidar com inundações?

Como falei anteriormente, é primordial conservarmos o que ainda temos; as cidades já possuem uma biodiversidade que promove benefícios em relação aos extremos climáticos. Por exemplo, a arborização urbana reduz consideravelmente os efeitos do calor extremo; a existência de parques e praças também “refresca”, além de serem áreas permeáveis, capazes de absorver parte da água da chuva. Praças urbanas e jardins ainda podem conter uma biodiversidade considerável: flores servem de recurso para polinizadores, e árvores frutíferas, para a avifauna.

Devemos valorizar e promover essas “soluções baseadas na natureza” e evitar a deterioração desses ambientes com a utilização de herbicidas, grama sintética e, principalmente, evitar a impermeabilização dessas áreas. Contudo, em se tratando de resiliência climática, devemos ter em mente que a solução não é individual; o planejamento deve ser estratégico nas escalas regional e nacional, com políticas públicas que priorizem a conservação.

Pergunta: Em um contexto onde a desinformação sobre o clima é alta, qual é o principal boato ou narrativa falsa sobre o meio ambiente que tem circulado no Rio Grande do Sul, e como a ciência da biodiversidade nos ajuda a desmentir esse tipo de informação e guiar a recuperação do estado?

Um boato um tanto antigo e que segue sendo repetido nos dias atuais — e que inclusive consta na “carta do bioma Pampa” produzida pelo governo do RS à COP30 — é o tal do “reflorestamento”. Primeiro, temos que entender que isso que chamam de reflorestamento nada tem a ver com florestas. São, na verdade, “lavouras de árvores”, constituídas de plantas todas iguais e da mesma idade, de apenas uma espécie — quase sempre exótica (que não é da nossa flora) — plantadas e manejadas para a produção de fibra, e que em nada se assemelham aos ecossistemas naturais. Enquanto uma floresta propriamente dita possui uma enorme diversidade — não só de espécies de árvores, mas de ervas, arbustos, epífitas, sem falar em toda a fauna associada, que interage, se alimenta e se reproduz nesse ambiente —, uma floresta é um ambiente complexo, cheio de interações ecológicas entre plantas, animais e micro-organismos, com processos ecológicos que provêm diversos serviços ecossistêmicos, como a captura de carbono, polinização, fixação do solo, ciclagem de nutrientes e água.

Já os monocultivos de árvores (assim que deveriam ser chamadas as áreas de “reflorestamento”) têm uma biodiversidade muito reduzida, representam um risco à biodiversidade, não fornecem alimento para animais e são verdadeiros “desertos verdes”. A falácia muito repetida, inclusive citada na carta à COP30, é a de que essas áreas seriam “sumidouros de carbono”. Isso se deve a um entendimento muito raso do processo do carbono. De fato, as árvores plantadas capturam carbono e o armazenam em forma de madeira, mas não quer dizer que esse carbono esteja “imobilizado” ali. Após o corte, os troncos são levados à indústria e processados, devolvendo o carbono à atmosfera, juntamente com diversos poluentes associados. A área de plantio também fica muito degradada, com apenas os tocos e um solo muito pobre, onde a vegetação nativa já não consegue se estabelecer, necessitando de esforços de restauração e monitoramento para que se recupere.

Também devemos lembrar que grande parte do nosso estado é recoberta por ambientes de campos naturais, tanto no bioma Pampa quanto nos campos de cima da serra. E que esses ecossistemas, mesmo não sendo florestais, são altamente diversos e atuam na captura de carbono (estocando no solo), sem a necessidade de que se plantem árvores para tanto. Tais ambientes campestres vêm sendo convertidos a uma escala alarmante para dar lugar a plantações, inclusive de monocultivos de árvores.

Atualmente, temos realizado diversos estudos sobre o impacto desses monocultivos sobre a biodiversidade e os processos ecossistêmicos, inclusive na captura de carbono. Além disso, alguns grupos de pesquisa desenvolvem técnicas de restauração dos ambientes degradados após o monocultivo de árvores no estado. Nosso grupo (Rede Campos Sulinos) é muito ativo na defesa dos ambientes campestres do estado, participando de eventos, debates e audiências e realizando publicações em meios acadêmicos ou não. Um exemplo agora é a publicação da carta “A real situação do bioma Pampa frente à Carta do Governo do Rio Grande do Sul sobre o bioma para a COP30”, produzida conjuntamente com diversas entidades de pesquisa e de defesa do meio ambiente, na qual destacamos os reais desafios da conservação do bioma. No nível nacional, também estamos articulados com pesquisadores da área, discutindo e preparando materiais para desmistificar e informar sobre assuntos em biodiversidade voltados às políticas públicas. Cito como exemplo o “policy brief” que publicamos em relação ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg).

Atualmente, estamos discutindo a recente decisão do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual restingas somente configurariam Área de Preservação Permanente (APP) quando apresentarem “função ecológica”, o que revela um equívoco e um retrocesso na proteção dos ecossistemas costeiros já tão ameaçados.

Sobre o Verifica RS


Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.