Verifica Entrevista | Leia na íntegra a entrevista com o biólogo Paulo Horta sobre adaptação às mudanças climáticas no RS

*Por Bianca Ramires

O Verifica Entrevista chega como uma lente de aumento para as discussões da COP30. A série acompanhou o calendário de temas da Conferência do Clima a partir de conversas com especialistas.

Enquanto a Conferência debatia o futuro do planeta, o Verifica RS voltou o olhar para o presente e para a vida das comunidades que já enfrentam os efeitos da crise climática. Nosso propósito é conectar o global ao local: trazer os grandes temas de Belém para dentro da realidade do Rio Grande do Sul, mostrando que os desafios climáticos que atingem nossas cidades também estão no centro da agenda mundial.

Seja nas reflexões sobre infraestrutura, energia limpa ou adaptação das zonas costeiras, a ideia é uma só: sensibilizar e aproximar a comunidade dessas pautas urgentes, lembrando que Belém e Porto Alegre compartilham a mesma maré de preocupações: o futuro diante das mudanças climáticas.

Entrevista com Paulo Horta


Para compreender os impactos e as possíveis soluções de adaptação às mudanças climáticas, o Verifica RS conversou com o biólogo Paulo Horta, pesquisador do Instituto Coral Vivo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante da Rede Clima.

Horta tem se dedicado a estudar, em especial como as zonas costeiras brasileiras, áreas de intensa vida social, econômica e ecológica, podem reagir às transformações provocadas pelo aquecimento global. Seu trabalho une ciência, conservação e políticas públicas, propondo caminhos para uma convivência mais sustentável entre as cidades e o mar.

Pergunta: Qual a realidade do Rio Grande do Sul agora frente às mudanças climáticas?

Olhar para o cenário da realidade climática de qualquer território no Sul do Brasil é especialmente importante. A gente precisa levar em consideração tanto as questões que são efetivamente globais, relacionadas ao clima, ao aquecimento e às mudanças climáticas, quanto às transformações que nós estamos impondo aos territórios. O desmatamento, o adensamento das manchas urbanas, tudo isso compõe a realidade de qualquer território, mas especialmente na região Sul do Brasil.

Então, sim, as mudanças climáticas estão acelerando e, com esse processo, o aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos está entre as consequências do agravamento da crise. Quanto mais o planeta aquece – chegamos a um grau e meio no ano passado – estamos muito próximos de ultrapassar, de maneira definitiva, esse limite que não deveríamos ter alcançado, então a crise climática está mais grave.

E à medida que nós desmatamos ou construímos cidades cada vez maiores e mais densas, alteramos o deslocamento de massas de ar e o escoamento de superfície, o que potencializa tragédias como as vividas no Rio Grande do Sul e, mais recentemente, no Paraná.

Pergunta: A Defesa Civil emitiu um alerta para um tornado que atingiu dez cidades no estado dias antes da COP30. Você acredita que esse fenômeno possa estar relacionado às mudanças climáticas?

A relação entre os tornados que observamos no Brasil e as mudanças climáticas só pode ser feita depois de um estudo detalhado de atribuição. É plausível supor que sim, que esses eventos estejam também relacionados ao agravamento da crise climática.

Em eventos anteriores, foi feito o estudo de atribuição e havia um percentual bastante razoável de relação entre o evento extremo e o agravamento da crise climática. Esse é um processo que precisa ser respeitado, porque é importante para avaliarmos, no diálogo político, para onde devem ir os recursos e, claro, os esforços do poder público.

Tomo esse cuidado porque, sim, sem dúvida nenhuma, temos que combater a crise climática. Mas também precisamos reflorestar as áreas degradadas e desmatadas, rever o planejamento urbano, mitigar as consequências da crise climática enquanto ainda não convencemos os governantes do mundo a mudar os rumos das políticas que definem o uso de combustíveis fósseis, o uso da terra, o desmatamento, a agroindústria, a agropecuária e assim por diante.

Pergunta: De que forma você deseja que isso seja debatido na COP30? Como o estado do Rio Grande do Sul e as instituições gaúchas podem agir para se prevenir de desastres climáticos?

É fundamental que isso seja discutido como prioridade e que seja, de fato, assumida a urgência como premissa. Adiar a descarbonização do sistema de transporte ou de geração de energia ou novas perspectivas na gestão do uso do território nos coloca diante da ultrapassagem de limites que são termodinamicamente impostos.

Se ultrapassarmos esses limites, que são os limites do planeta, estaremos em uma zona em que não haverá adaptação possível. Isso significa, por exemplo, aqui em Belém, onde está acontecendo a COP, transformar a cidade em uma região, por vários dias do ano, inóspita para o ser humano, com temperaturas e umidades que podem matar crianças e idosos, especialmente, muito rapidamente.

É importante ter essa noção de urgência e emergência. A continuidade do cenário atual pode produzir um verdadeiro holocausto climático até 2050, com a morte de bilhões de seres humanos. Por isso, é essencial que haja comprometimento neste momento.

As instituições gaúchas – e as de qualquer outro estado – precisam assumir a responsabilidade pública, zelar pela Constituição e garantir um meio ambiente saudável e preservado. Isso representa uma solução de adaptação e mitigação baseada na natureza, que leva à resiliência dos territórios. Quanto mais natureza tivermos, mais resilientes seremos.

Com a restauração das áreas degradadas, podemos inclusive contribuir para a restauração climática, que é possível. É preciso uma gestão comprometida, pautada pela ética do cuidado e pelos princípios de prevenção e precaução, com integração entre todos os entes da administração.

A secretaria de mobilidade, por exemplo, deve promover a descarbonização da mobilidade, priorizando o transporte público coletivo eletrificado, e por que não com passe livre? Assim, induzimos a descarbonização da sociedade e contribuímos com outras áreas, como moradia, meio ambiente e saneamento, descarbonizando o estado e promovendo adaptação em todas as frentes.

Hoje, a questão de resíduos e rejeitos e a questão do saneamento representam uma importante fonte de emissões em todo o território e, segundo o painel de acompanhamento das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, essa fonte teve aumento. Por isso é muito importante revermos o saneamento básico: podemos implementar alternativas que absorvam carbono e, no lugar de emitir metano, captá-lo. O metano captado pode ser mitigado e transformado em energia ou processos que reduzam o impacto desse importante gás do efeito estufa.

A revisão de práticas seculares, muitas ainda baseadas em princípios medievais, se feita com celeridade, pode, sim, garantir estados mais resilientes e saudáveis. É essencial integrar diferentes disciplinas e entes da federação para que esse processo proporcione um mundo multipolar que entenda sua responsabilidade no enfrentamento da crise climática. Tudo isso precisa vir acompanhado de uma consciência coletiva: compreender que cada um de nós tem um papel nesse enfrentamento e que essa responsabilidade deve ser compartilhada, com atenção constante e compromisso real com a promoção de justiça em um mundo profundamente desigual. Essa lógica precisa, de fato, estar presente na administração pública.

Nesse contexto, temos insistido, por exemplo, na implementação de um SUS do meio ambiente. Através dele, podemos articular todas as pastas, os órgãos ambientais do estado e das prefeituras, aumentando a eficiência do poder público na conservação, educação ambiental, letramento oceânico e climático e mitigação. Um SUS ambiental pode ser um braço forte e fundamental do Estado para termos sociedades mais saudáveis, na perspectiva da ecologia, e mais resilientes diante da crise climática.

Pergunta: O Sul está vivendo uma emergência climática neste momento por conta dos ciclones que aconteceram dias antes da COP começar. Você está vendo este assunto estar presente no evento?

Sem dúvida. Tudo o que aconteceu no Rio Grande do Sul no passado, as enchentes do ano passado e os ciclones deste ano, virou pauta e reflexão para muitos tomadores de decisão. O próprio presidente Lula lembrou disso em seu discurso de abertura.

É muito importante que a sociedade se mobilize e faça pressão, porque ainda convivemos com muitos governantes negacionistas, que atribuem essas tragédias a falsas verdades ou pós-verdades. É essencial repudiar os negacionistas que, ao atrasarem a tomada de decisão, potencializam tragédias.

Precisamos de sociedades que entendam que nosso único e real inimigo, neste momento, é a crise climática. Todos os países devem convergir para o enfrentamento dessa crise, com financiamento contundente e priorização de ações que elevem a resiliência, promovam descarbonização, acelerem a transição energética e reduzam o consumo.

Vivemos em uma sociedade de produção e consumo que não respeita seus limites e, portanto, causa a crise que enfrentamos. Se a gente quer ter, de fato, uma solução sustentada e sustentável, é fundamental que se reveja os princípios que norteiam as nossas sociedades. Porque, como disse a ministra Marina Silva, as soluções não têm nenhuma limitação técnica. As soluções técnicas existem e são baseadas em ciência, na natureza e em culturas originárias e conhecidas, mas as limitações hoje são éticas.

Precisamos descarbonizar as economias, especialmente as nações do Norte global, e reduzir drasticamente o consumo. Essas sociedades precisam rever seus princípios éticos, porque são as sociedades do “ter”, efetivamente, as responsáveis pela tragédia que estamos vivendo. Enquanto alguns bilionários em um voo emitem toneladas de dióxido de carbono, as populações mais pobres do mundo, que quase nada emitem, são as que mais sofrem as consequências.

Pergunta: E qual sua opinião sobre isso estar acontecendo justamente ao mesmo tempo em que acontece a Conferência do Clima?

Nós vivemos um processo de aceleração da crise climática. As tragédias do Rio Grande do Sul aconteceram no ano da COP29 que, infelizmente, não foi realizada no Brasil. Agora, vivemos novas tragédias durante a COP30 e isso precisa ser um elemento mobilizador para que as decisões dos negociadores, aqui na zona azul, sejam comprometidas com o direito transgeracional de termos cidades e territórios justos e saudáveis, com segurança alimentar, hídrica e sanitária respeitadas.

Isso precisa ser um ponto de inflexão, porque aconteceram tragédias anteriores, nas outras vinte e nove COPs, no Brasil e em outros países, e elas não foram suficientes para mobilizar a sociedade. Agora, em Belém, encontramos representantes de diferentes regiões do mundo, todos com histórias dramáticas: enchentes, deslizamentos, fome, ondas de calor, incêndios, furacões, tornados, ciclones, que mataram muitas pessoas. Foram pais, mães, netos, tios, parentes, amigos, cujas ausências deixaram uma tristeza imensurável.

Basta de tragédias! Que esta COP seja, de fato, o momento em que os poderosos do mundo dediquem todos os seus esforços e recursos para ações urgentes e emergenciais, na escala necessária, para garantir as adaptações indispensáveis, especialmente para o Sul Global.

Precisamos de financiamento para perdas e danos e de mitigação imediata, porque cada décimo de grau conta.

Sobre o Verifica RS


Fundado em maio de 2024, o Verifica RS é uma rede de jornalistas, pesquisadores e comunicadores que atua na propagação de conteúdo verificado sobre enchentes e a crise climática no Rio Grande do Sul.